Atenção: O que determina aquilo que realmente processamos?
Pare por alguns segundos e observe o ambiente ao seu redor. Quantas informações estão chegando até você neste momento? Sons, imagens, movimentos, sensações, pensamentos... É impossível processar conscientemente tudo ao mesmo tempo. É justamente aí que entra a atenção.
A atenção exerce uma função de seleção. Ela ajuda nosso sistema cognitivo a definir quais informações receberão prioridade e quais poderão ser momentaneamente ignoradas. Por isso, atenção e memória são processos profundamente interdependentes.
Baddeley e Hitch (1974, apud Martín, 2024) mostram que a memória de trabalho depende diretamente dos recursos atencionais. Como sua capacidade é limitada, precisamos de foco, controle e filtragem eficiente dos estímulos. Podemos dizer, portanto, que a atenção atua como mediadora da percepção: seleciona informações relevantes e reduz a interferência das distrações.
Cosenza e Guerra (2011) entendem a atenção como a capacidade de concentrar-se em aspectos específicos do ambiente. Essa ideia dialoga com o modelo de filtro de Broadbent (1958, apud Goldstein, 2022), segundo o qual um sistema perceptivo inicial filtra as informações antes que elas alcancem o processamento consciente.
Treisman (1964, apud Goldstein, 2022) amplia essa discussão ao considerar que a percepção inicial dos estímulos participa da determinação das informações que conseguem ultrapassar o filtro atencional.
Modalidades de atenção
Levine (2003) e Goldstein (2022) apresentam diferentes modalidades de atenção, sendo que algumas delas você poderá verificar a seguir. 01 A atenção seletiva permite concentrar-se naquilo que é relevante e filtrar estímulos irrelevantes. 02 A atenção sustentada possibilita manter o foco durante períodos prolongados. 03 A atenção alternada permite mudar rapidamente entre atividades. 04 A atenção dividida possibilita lidar simultaneamente com múltiplas fontes de informação, embora isso seja possível sobretudo em tarefas simples ou amplamente treinadas.
Essas capacidades não se apresentam exatamente da mesma maneira em todas as pessoas. Elas variam entre os estudantes e podem influenciar diretamente o desempenho acadêmico. Cosenza e Guerra (2011) apresentam ainda outras modalidades de atenção: 05 A atenção executiva está relacionada à autorregulação e ao controle consciente. 06 A atenção reflexa é acionada automaticamente diante de estímulos com elevada saliência perceptiva. 07 A atenção voluntária pode ser influenciada por condições internas, entre elas hidratação, emoção e motivação. Isso nos ajuda a compreender um aspecto fundamental: a atenção não funciona como um botão que simplesmente ligamos ou desligamos. O desempenho atencional é dinâmico e sofre influência tanto das condições internas do indivíduo quanto das características do ambiente. Pense em um estudante cansado, preocupado ou ansioso, ou em uma sala repleta de estímulos simultâneos. Sua capacidade de prestar atenção pode mudar significativamente nessas condições. Oscilações no nível de alerta cerebral, emoções intensas e ambientes sobrecarregados de estímulos afetam a atenção e a memória. Levine (2003) chama ainda a atenção para aspectos do estilo de vida contemporâneo, como privação de sono e superexposição digital, que podem comprometer a concentração.
Carga perceptual
Outra contribuição relevante da Psicologia Cognitiva vem do conceito de carga perceptual, apresentado por Lavie (1995, apud Goldstein, 2022). Tarefas de alta carga perceptual podem reduzir distrações por exigirem maior foco, mas também podem provocar sobrecarga quando ultrapassam a capacidade perceptiva do indivíduo. Essa relação é especialmente aplicável às tarefas perceptivas de atenção seletiva e não ocorre exatamente da mesma maneira nas atividades envolvendo memória de trabalho ou controle executivo.
Agora fica mais fácil compreender por que atenção e memória são inseparáveis quando aprendemos.
No modelo apresentado por Martín (2024) anteriormente, os estímulos captados pelos órgãos dos sentidos entram inicialmente na memória sensorial. Por meio do foco da atenção, algumas dessas informações são selecionadas e transferidas para a memória de trabalho, na qual ocorre processamento ativo, manipulação e manutenção temporária dos dados.
Depois, por meio da codificação, parte das informações significativas pode ser consolidada na memória de longo prazo. Por isso, atenção e codificação funcionam como importantes pontes entre aquilo que percebemos e aquilo que poderá transformar-se em aprendizagem duradoura.
Esse entendimento traz uma consequência importante para qualquer situação de aprendizagem: não podemos pressupor que toda informação apresentada será automaticamente processada e aprendida.
Antes de ser memorizada, uma informação disputa espaço com muitos outros estímulos. Por isso, criar condições que favoreçam o foco, reduzir distrações desnecessárias, selecionar informações essenciais e evitar a sobrecarga da memória de trabalho tornam-se aspectos fundamentais para favorecer a aprendizagem.
Pesquisadores citados neste texto
Autores e pesquisadores que fundamentam as discussões apresentadas ao longo deste conteúdo.
Referências presentes na bibliografia do arquivo
COSENZA, R. M.; GUERRA, L. B. Neurociência e educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.
GOLDSTEIN, E. B. Psicologia cognitiva: conectando a mente, pesquisas e experiências cotidianas. Tradução de Edson Furmankewicz. Revisão técnica de Marcelo Fernandes Costa. São Paulo: Cengage Learning, 2022.
LEVINE, Melvine D. Educação individualizada: motivação e aprendizado sob medida para seu filho. Tradução de Vania Maria da Cunha Martins Santos. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
Observação: Baddeley e Hitch, Broadbent, Treisman e Lavie aparecem no texto por meio de citações indiretas e não possuem entradas independentes na bibliografia final apresentada no arquivo.