Emoção: Por que o que sentimos também interfere no que aprendemos?
Você provavelmente já percebeu como algumas experiências emocionalmente marcantes permanecem na memória durante muitos anos. Talvez também já tenha vivido a situação oposta: tentar concentrar-se em alguma coisa quando está muito preocupado, ansioso ou estressado e perceber como isso pode ser difícil.
Essas situações nos ajudam a compreender uma relação fundamental: emoção, atenção e memória estão profundamente conectadas.
Shuman e Scherer (2015, apud Martín, 2024) explicam que as emoções mobilizam recursos cognitivos quando percebemos determinados estímulos como ameaças ou oportunidades. Em outras palavras, as emoções participam da maneira como nosso sistema cognitivo estabelece prioridades.
Cosenza e Guerra (2011) complementam essa ideia mostrando que emoções intensas podem aumentar a vigilância e direcionar nossa atenção para determinados aspectos considerados relevantes. Assim, aquilo que sentimos pode influenciar aquilo que recebe nossa atenção.
Mas essa influência pode assumir diferentes formas. Nem toda emoção intensa favorece a aprendizagem.
Martín (2024) destaca que ansiedade e estresse podem prejudicar a memória de trabalho, ocupando-a com pensamentos irrelevantes. Imagine um estudante tentando resolver uma questão enquanto sua mente está tomada por preocupações. Parte dos recursos cognitivos que poderiam estar disponíveis para compreender, raciocinar e resolver o problema está sendo utilizada para lidar com esses pensamentos.
Izquierdo (2018) também chama a atenção para o fato de que os processos de consolidação e evocação das memórias são profundamente sensíveis às variáveis emocionais. Fadiga, ansiedade e desmotivação podem, portanto, comprometer a aprendizagem.
Ao mesmo tempo, determinados acontecimentos emocionalmente significativos podem produzir memórias mais duradouras. Cahill e McGaugh (1998, apud Izquierdo, 2018) relacionam esse fenômeno ao alerta emocional, que pode fortalecer a consolidação mnemônica. Isso nos ajuda a compreender por que algumas experiências permanecem conosco por tanto tempo.
Nairne (2010, apud Goldstein, 2022) apresenta uma ideia relacionada: o processamento de sobrevivência. Informações vinculadas a situações de relevância adaptativa tendem a ser mais facilmente retidas. Isso mostra que nem todas as informações recebem o mesmo tratamento durante o processamento e a consolidação.
Também existe uma relação importante entre emoção e memória de trabalho. O córtex pré-frontal, estrutura central das funções executivas, participa da coordenação da atenção, do planejamento e do controle de comportamentos intencionais, atuando como um elo entre emoção e cognição.
Izquierdo (2018) destaca que estados emocionais positivos e sono adequado podem favorecer a atividade neuronal relacionada a essas regiões e à atuação de neurotransmissores importantes para o desempenho da memória de trabalho. Em contrapartida, humor negativo, privação de sono e depressão podem comprometer esses processos.
Tudo isso nos ajuda a perceber por que aprender não é apenas uma atividade “intelectual”. O estado emocional do estudante pode interferir nos recursos disponíveis para prestar atenção, raciocinar, manipular informações e formar novas memórias.
Isso também nos convida a pensar sobre a importância de relacionar conhecimentos a experiências pessoais, situações reais e exemplos cotidianos. Não se trata simplesmente de provocar emoções ou transformar toda experiência de aprendizagem em entretenimento. O ponto central é favorecer relevância e significado.
Quando uma informação encontra relação com aquilo que a pessoa já conhece, vive ou considera relevante, podemos criar condições mais favoráveis para seu envolvimento com a aprendizagem. Questões provocativas, dilemas, dramatizações, debates e situações contextualizadas podem participar desse processo quando utilizados com intencionalidade.
Essa discussão ganha especial importância quando pensamos nas crianças e nos adolescentes que crescem em ambientes marcados pela hiperconectividade. Twenge (2017) é uma das pesquisadoras utilizadas para discutir relações entre a experiência dos jovens altamente conectados e aspectos como ansiedade, depressão e bem-estar. Sua obra iGen integra a bibliografia utilizada para essa discussão.
Moran (2018), por sua vez, destaca a importância de experiências de aprendizagem significativas, com propósitos claros e feedbacks contínuos, nas quais o estudante assume uma posição central e o professor atua como mediador e orientador da aprendizagem.
Assim, falar sobre aprendizagem sem considerar as emoções significa deixar de lado uma dimensão importante do processo. Aquilo que sentimos pode direcionar nossa atenção, ocupar recursos da memória de trabalho e interferir na consolidação e na evocação das memórias.
Concluindo
Memória, atenção e emoção formam, portanto, um conjunto profundamente interdependente. A atenção participa da seleção daquilo que será processado; a emoção influencia a prioridade atribuída aos estímulos e o funcionamento dos processos cognitivos; e a memória permite que experiências e conhecimentos sejam codificados, consolidados, reorganizados e recuperados.
Compreender essas relações nos leva a uma ideia essencial: ensinar não é apenas apresentar informações. É criar condições para que o estudante possa prestar atenção, atribuir significado ao que aprende, relacionar o novo ao que já conhece e construir memórias que possam ser recuperadas e utilizadas posteriormente.
Pesquisadores citados neste texto
Autores e pesquisadores que fundamentam as discussões apresentadas ao longo deste conteúdo.
Referências presentes na bibliografia do arquivo
COSENZA, R. M.; GUERRA, L. B. Neurociência e educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.
GOLDSTEIN, E. B. Psicologia cognitiva: conectando a mente, pesquisas e experiências cotidianas. Tradução de Edson Furmankewicz. Revisão técnica de Marcelo Fernandes Costa. São Paulo: Cengage Learning, 2022.
IZQUIERDO, Ivan. Memória [recurso eletrônico]. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
MORAN, José. Metodologias ativas para uma aprendizagem mais profunda. Campinas: Papirus, 2018.
TWENGE, J. M. iGen: why today’s super-connected kids are growing up less rebellious, more tolerant, less happy – and completely unprepared for adulthood. New York: Atria Books, 2017.
Observação: Shuman e Scherer, Cahill e McGaugh e Nairne são mencionados por meio de citações indiretas e não possuem entradas independentes na lista final de referências do arquivo.